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OS CORTES NA PELE SÃO OS NOVOS RELACIONAMENTOS TÓXICOS

Já tem alguns anos, os adolescentes chegam até meu consultório com a queixa de que sentem uma angústia e vazio enormes em suas vidas. E quando estão em crise, praticam a automutilação, para que possam aliviar esses sentimentos. Com frequência, andam em grupos de amigos que lidam da mesma forma com suas emoções. Mas sair desse looping de sentimentos negativos e práticas que também ferem parece ser algo difícil. 

Numa conversa que tive sobre isso com uma paciente, nos damos conta que a automutilação é como se fosse o relacionamento tóxico, só que consigo mesmo. 

Deixa explicar melhor: Até um tempo atrás, várias mulheres casadas passavam por situações tóxicas e ficavam inertes neste papel, por simplesmente ser aceitável, ser o padrão. Elas sofriam com uma série de abusos (psicológico, físico e até sexual), porque na época era difícil separar. E os homens, muitas vezes mantinham esse padrão de comportamento porque ninguém falava muito sobre o quanto isso era prejudicial. As traições, mesmo quando descobertas eram de certa forma banalizadas. Os xingamentos durante uma briga machucavam… mas quem gostaria de virar uma “desquitada” ou “perder” o marido? Muito foi discutido sobre isso até chegar no ponto de que atualmente sabemos que isso não é benéfico para ninguém, nem para o casal e nem para os filhos. Obviamente, algumas pessoas ainda mantém esses tipos de relacionamentos, mas com a consciência de que não são adequados para sua saúde mental.

Nesse contexto, vejo o comportamento de automutilação de maneira semelhante. Porque até certo ponto ele é considerado aceitável entre os jovens, por mais absurdo que isso pareça, e tem sido sim banalizado. O relacionamento consigo mesmo e seus sentimentos são desenvolvidos através da ótica de que sofrer é “cool” e se machucar também. 

Mas precisamos falar sobre isso: lidar com seus sentimentos negativos dessa forma não é legal. E digo isso porque estudos demonstram que entre 13-28 % dos adolescentes apresentam episódios de automutilação mesmo sem ter algum transtorno mental associado.

De forma frequente, eles trocam informações sobre como e a frequência com que praticam essas lesões auto infligidas e soa normal. 

Aqui vale um ponto extremamente importante: Há e existe sofrimento. Porém é preciso saber que essa relação tóxica consigo mesmo não é algo que faça sentido ou o faça ser especial, pelo contrário, é uma situação que só traz mais sofrimento e angústia.   Esse curso precisa ser mudado, assim como foi com relação a situações conjugais tóxicas que eram comuns há anos atrás. 

É preciso sim evoluir do ponto de vista de saúde mental.

Apenas assim será possível construir um sentimento que é primordial para a felicidade e bem-estar do indivíduo: O amor próprio.

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